Exposição mostra peças artísticas em argila misturada com alumínio de Juruti
Já está aberta a visitações agendadas a exposição “Cerâmica – Matéria e Expressão Cultural”, no Escritório da Alcoa em Belém. Na mostra, painéis fotográficos realizados por profissionais do GQ Foto Estúdio, de Gustavo Quintela, contam um pouco da história milenar do material, que já foi usado por todos os povos e culturas em diversas funções. “Foi um desafio especial fotografar as peças arqueológicas do Museu Goeldi. Não podíamos manusear, por causa da fragilidade das peças, e precisamos de muita imaginação para tratar da iluminação e dos ângulos”, conta Gustavo.
Além das fotos, a exposição traz algumas peças criadas pela artista plástica paraense Berna Reale. Nelas, à argila são adicionados minérios como a bauxita extraída pela Alcoa em Juruti. Após beneficiamento, é extraída a alumina, um dos principais componentes do minério, e matéria-prima do alumínio.
Essas etapas estão à mostra em um painel feito por 150 peças em cerâmica, nos quais cerca da metade foi feita com adição da bauxita, e a outra metade, com alumina. A diferença? As cores. Enquanto a cerâmica feita apenas com argila assume uma tonalidade alaranjada, a bauxita fornece uma cor de vermelho fechado, meio terracota. Já a alumina faz a peça ficar naturalmente branca, dispensando a necessidade de tinta.
“É preciso ter cuidado na hora de adicionar esses minérios, pois cada um reage de maneira própria à queima. Se colocar bauxita demais, por exemplo, a peça fica quebradiça. Eu me baseei nas pesquisas do Departamento de Química da Universidade Federal do Pará, mas também experimentei bastante até chegar à fórmula atual”, explica Berna, que também utiliza minerais como caulim e minério de ferro em suas obras.
Abrir o casarão centenário que abriga a Alcoa em Belém para uma exposição sobre cultura paraense já está se tornando tradição na mineradora. No ano passado, a Companhia realizou uma mostra sobre patrimônio histórico do Pará. Para o diretor de Segurança, Saúde, Meio Ambiente e Sustentabilidade da Alcoa, Nilson Souza, os eventos são uma forma de valorizar a cultura regional, além de permitirem à empresa a inserção no contexto local. “Buscamos nos tornar cidadãos locais, e a cidadania passa pela valorização dos movimentos artísticos e pela identificação com as manifestações culturais”, diz. “Além disso, quando iniciamos o processo de mineração de bauxita em Juruti, parte do procedimento é fazer um resgate arqueológico da área. E lá, encontramos muitas peças de cerâmica que o Museu Goeldi catalogou. É parte da história local e não podemos perder esse rastro de quem passou por aqui”, relata.
A mostra pode ser visitada até o final do ano, após agendamento pelo e-mail: juliana.miranda@alcoa.com.br, na sede da Alcoa, que fica na Travessa Dr. Moraes, 70.
ARTESANATO – A exposição também dá espaço à cerâmica produzida no Distrito de Icoaraci. Um dos principais nomes do artesanato paraense, mestre Raimundo Cardoso também teve sua história lembrada. A tradição do trabalho com a argila foi passada para o filho, Levy, e resiste à transição de gerações.
“Desde que me lembro, ele já trabalhava com a cerâmica arqueológica, fazendo as réplicas de peças arqueológicas que viajam pelo mundo. Cresci com essa técnica, e não tinha como ir para outra profissão”, lembra.
Estabelecido há mais de 30 anos na Vila Sorriso, o baiano José Anisio Silva também aprendeu a desvendar os segredos guardados na argila. “É gentileza de quem diz”, afirma, modesto, para completar: “desde que comecei na profissão, fiz o possível para aprender mais. Participei de vários cursos e sempre procurei me manter atualizado”.
A mostra já recebeu elogios de artistas e pesquisadores como Janice Lima, a diretora do Liceu Escola de Artes e Ofícios Mestre Raimundo Cardoso, localizado em Icoaraci: “Vou organizar visitas dos alunos do Liceu, começando pelos professores. A exposição é uma forma de valorizar a cultura local e aumentar a autoestima de quem trabalha com cerâmica”, diz.
HISTÓRIA – A cerâmica é um dos materiais mais antigos já produzidos pelo homem. Em diferentes formas, aplicações, utilizações, todos os povos a produziram. “Como traço comum a todas as culturas, há sempre a relação entre o homem e o seu ambiente natural”, explica José Fernandes Fonseca Neto, curador da exposição. “Mas a cerâmica amazônica tem características que variam de acordo com a época. Originalmente, era usada de forma ritualística. Hoje, a produção de Icoaraci é usada como forma de atrair o turismo e na decoração”, completa.
