• Tribuna da Calha Norte

Acari passa a ser Patrimônio Cultural Imaterial de Monte Alegre


Genival Cardoso

O peixe cascudo de aparência feia, que deixa a mão do pescador grossa e com ferimentos, mas é o pescado de preferência dos montealegrenses. Estamos falando do Acari (Liposarcus pardalis), que se tornou Patrimônio Cultural Imaterial de Monte Alegre.

Um Projeto de Lei de autoria da vereadora Lúcia Braga, foi apresentado na Câmara municipal de Monte Alegre e teve primeira e segunda votação nos dia 25 e 26 de novembro, sendo aprovado por unanimidade que transforma o Acari em Patrimônio Cultural Imaterial de Monte Alegre. No dia seguinte, dia 27 o prefeito Jardel Vasconcelos sancionou a Lei e mandou que publicasse.

No argumento apresentado pela vereadora, Lúcia Braga, ela ressalta que o Acari faz parte da gastronomia dos montealegrenses e que precisa preservar essa cultura. “O acari é um dos pratos favoritos do município de Monte Alegre, está incorporado nas mesas dos Pinta Cuias que promovem eventos com o peixe assado na brasa, como a famosa piracaia, por exemplo. Ao mesmo tempo surgiu a famosa Caldeirada de Acari; a mojica; farinha de piracuí, da qual se faz farofa com banana, bolinhos, tortas e outros. Ou seja, com o passar do tempo, outras receitas foram adaptadas para agregar mais valor ao sabor único do peixe”, salienta Lúcia Braga.

A vereadora lembra que os tradicionais "Festivais do Acari" nas comunidades de Curralinho e Sapucaia da mais sustentação para, nada mais justo que seja, legitimamente, considerado como "Patrimônio Imaterial" da cidade de Monte Alegre, pois é preciso promover e proteger a memória e as manifestações culturais representadas por monumentos, sítios históricos, gastronomias e paisagens amplamente reconhecidas.

Em entrevista ao jornal Tribuna da Calha Norte, Lúcia Braga, disse que a tradição de consumir acari no município vem desde os indígenas que habitavam as margens do rio Gurupatuba, passou para os portugueses que chegaram aqui e é até hoje, o pescado favorito dos moradores, tanto da área urbana como rural. “Aqui a gente cresceu com essa cultura do Acari nas nossas mesas. Lembro quando eu era garota que, em aniversário, batizado, as pessoas comemoravam com piracaia, a ‘acarizada’, onde faziam um buraco no chão e assavam um monte de acari, e a gente cresceu com essa cultura aqui. Então eu acho que é justo que seja um patrimônio daqui do município, e foi por isso que eu entrei com esse projeto de Lei”, sustenta Lúcia Braga.

O Acari é encontrado em igarapés e rios, desde o rio Ucayali, no Peru, até a foz do rio Amazonas no Amapá. É um peixe de água doce a reprodução da espécie acontece entre os meses de outubro e maio. O corpo do peixe é revestido por placas e espinhos que servem para defesa contra predadores naturais, como por exemplo, os botos. De hábitos noturnos, os bodós vivem agrupados em casais e na natureza tendem a se unir em blocos.

Apesar de ser o peixe favorito dos montealegrenses, a maior captura desse peixe está nos lagos do município de Prainha, na região do Pacoval e Santa Maria do Uruará, tendo nos últimos anos um crescimento na produção da farinha de peixe, o piracuí de acari, levando inclusive o governo municipal de Prainha, adotar o piracuí de acari como complemento na merenda escola.


História do Acari em Monte Alegre

Um estudo arqueológico publicado no Journal of Archaeological Science aponta que os índios que viviam na Amazônia Central há mais de mil anos dependiam principalmente da pesca para se alimentar.

Antigamente, os indígenas assavam e enfumaçavam o acari em uma grelha de madeira para que ele ficasse desidratado, o nome do processo era chamado de moquém. Dessa forma, o peixe podia ser armazenado durante semanas ou levado para viagens. Já para consumo imediato, os indígenas assam o peixe.

Com a vinda dos colonizadores para a Amazônia, o preparo do bodó sofreu algumas adaptações, por exemplo, o peixe passou a ser apenas assado, e não moqueado, sobre grelhas próximas ao fogo. Na mesma época, surgiu a famosa caldeirada de bodó, com o passar do tempo, outras receitas foram adaptadas para agregar mais valor ao sabor único do peixe. Além das receitas tradicionais, o acari também pode virar um tipo de farinha, popularmente conhecido como piracuí.

Em um passado pouco distante, cerca de 50 anos atrás, o município de Monte Alegre estava em expansão ruralista, a maior parte da população já vivia no meio rural, essas famílias sobreviviam de forma tradicional da caça, pesca, coleta de frutas e pecuária, Na área de terra firme o consumo de peixe era geralmente consumido de forma salgada pois não existia eletricidade. As viagens para a zona urbana de Monte Alegre era geralmente uma vez por semana em caminhões pau-de-arara, outros vinham de carros de bois, com essa dificuldade de locomoção o único pescado que poderia chegar fresco e até vivo em alguns locais do meio rural, era o Acari.

Na cidade de Monte Alegre o acari era comercializado nas margens do rio Gurupatuba, geralmente em canoas parcialmente inundadas para mantê-los vivos. O pescado vinha da zona do Lago Grande de Monte Alegre e do município de Prainha, da região de Boa Vista do Cuçari.

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