• Tribuna da Calha Norte

Livro descreve a presença de uma baleia no rio Tapajós e vivência de ribeirinhos

Obra traz projeto editorial com ilustrações do artista indígena Wapichana, Gustavo Caboco. Fotografia da Baleia-minke no rio Tapajós, em Piaquituba, no Pará

(Foto: Arquivo pessoal Seu Azulay)



Izabel Santos

O antropólogo e jornalista Fábio Zuker lançou seu livro: “Vida e morte de uma Baleia-Minke no interior do Pará e outras histórias da Amazônia”, com noite de autógrafos na Casa do Povo, no bairro Bom Retiro, em São Paulo, no iníco de novembro.

A obra reúne reportagens publicadas pela agência Amazônia Real, onde o jornalista é colaborador desde 2017, crônicas e relatos inéditos originários das entrevistas que fez com populações tradicionais na região amazônica.

Editado pela Publication Studio São Paulo, o livro traz ilustrações exclusivas do artista indígena Gustavo Caboco, do povo Wapichana.

O título “Vida e morte de uma Baleia-Minke no interior do Pará e outras histórias da Amazônia” é em referência à reportagem que Fábio Zuker, 30 anos, produziu sobre a Baleia-minke (Baleanoptera acutorostrata) que apareceu na pequena comunidade ribeirinha Piquiatuba, localizada às margens do Rio Tapajós, no oeste do estado do Pará, distante cerca de mil quilômetros do Oceano Atlântico. O fato inédito despertou a imaginação e curiosidade dos moradores do local e de todo o país, em 2007.

“Nutro grande carinho por esta reportagem. No texto, a partir deste fato inusitado, desta situação quase surreal, cria-se um ponto de vista particular para pensar a expansão da soja e a construção das hidrelétricas no Tapajós”, explica Zuker.

Além dessa reportagem, o leitor poderá revisitar textos escritos pelo jornalista sobre situações críticas vividas na Amazônia como: o intenso fluxo migratório de venezuelanos em Roraima; as consequências das enchentes e secas no município amazonenses de Anamã e as formas de perpetuação do conhecimento ancestral dos Kumuã (pajé) do Alto Rio Negro, no Amazonas; e os impactos socioambientais do excesso de agrotóxico da produção de açaí nas comunidades ribeirinhas do Pará. Também há um ensaio-reportagem publicado pelo Nexo Jornal sobre a auto-demarcação do território Tupinambá no Baixo Tapajós, também no oeste do Pará.

“Tentei trazer para o papel algumas reportagens realizadas na Amazônia, principalmente aquelas com tom mais, digamos, narrativo. A ideia foi acrescentar relatos meus ao texto impresso, relatos que não têm exatamente lugar em uma reportagem investigativa, mas que ainda assim ajudam a entender um pouco do contexto político e social pelo qual passa a região. Eles tomam forma como fragmentos dispersos ao longo do livro, e ilustrados por Gustavo Caboco”, acrescenta Fábio Zuker.

Com impressão em formato de bolso, o livro reúne diferentes gêneros textuais como reportagens, crônicas, relatos e outros materiais publicados online e que foram adaptados para a publicação. Segundo a editora Laura Daviña, o projeto gráfico foi pensado em sintonia com o projeto editorial sobre o que fazia sentido estar no livro como forma e conteúdo. “Por isso pensamos no Gustavo Caboco, que é um artista indígena Wapichana. As ilustrações dele abraçam as histórias escritas pelo Fábio”, revela.


Na opinião de Laura, o estilo de escrita de jornalista se assemelha ao do antropólogo Jorge Pozzobon (1955-2001), no livro “Vocês, brancos, não têm alma”, que conta histórias do povo Hupda, do Alto Rio Negro, através de uma perspectiva muito própria. “É como um caderno de notas, de campo, de um viajante, de alguém que está perto das pessoas e cria o próprio relato”, diz.

As ilustrações do artista indígena Wapichana, Gustavo Caboco, são um destaque do livro, pois fazem o leitor viajar nos caminhos que Fábio Zuker percorreu na Amazônia. Entre as ilustrações, o artista destaca as que mostram esses deslocamentos na Amazônia e a dos indígenas venezuelanos Warao, que partiram do rio Orinoco em direção ao rio Amazonas para buscar refúgio no Brasil.

“Eu tento criar imagens que conversam com o texto e evito caminhos literais na hora de ilustrar. Na verdade, faço mais uma criação de símbolos e complemento o que já está sendo dito para enfatizar a conversa entre texto e imagem. Talvez, dali saia um novo pensamento para quem está lendo a obra”, explica o artista Gustavo Caboco, que atualmente mora em Curitiba, capital do Paraná.

O livro “Vida e morte de uma Baleia-Minke no interior do Pará e outras histórias da Amazônia” também traz reflexões do autor, nas palavras dele, sobre a insuficiência da escrita diante das formas de destruição, mas também de resistência dos povos da floresta. “O livro nasce de uma tensão, da dificuldade em transformar em palavras aquilo que se observa”, explica Zuker, que buscou uma escrita ‘de perto’ junto às pessoas que vivenciam o processo de ameaças aos seus territórios na região amazônica.

Como exemplo das observações e reflexões ele cita um episódio ocorrido no Acampamento indígena Terra Livre (ATL), que acontece anualmente em Brasília. “Estava no banheiro do Congresso Nacional, acompanhado de indígenas Pataxós do Sul da Bahia. O senhor responsável pela faxina tentou estabelecer, sem sucesso, um diálogo com os indígenas sobre a situação que viviam, e os motivos de estarem ali protestando. Em uma frase, este senhor trouxe, de maneira descontraída e ao mesmo tempo crítica, toda a sua visão de mundo sobre a espoliação de terras das populações indígenas que marca a história do país. É quase uma anedota, que deixo ao leitor interessado o prazer em descobrir. Mas como anedota, contém uma verdade crítica e potente”, conta o escritor.

Fábio Zuker é cientista social, antropólogo e jornalista, dedicando-se principalmente a escrita de ensaios, crônicas e reportagens. Trabalhou em projetos curatoriais, como a Casa do Povo, Vila Itororó Canteiro Aberto, entre outros. É mestre em Ciências Sociais pela EHESS-Paris e doutorando em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo (USP). Como jornalista, além de colaborar com a agência Amazônia Real, já escreveu textos para National Geographic, Revista Piauí, Le Monde Diplomatique, Agência Pública, Nexo Jornal, Suplemento Pernambuco entre outros meios Nos últimos anos, tem trabalhado especificamente com histórias relacionadas à floresta amazônica, buscando uma escrita “de perto”, junto às pessoas que vivenciam o processo de destruição de seus territórios e suas formas de resistência.

© Copyright Jornal Tribuna da Calha Norte 2003 - 2020. Todos os direitos reservados.